Queria ver um poeta

Sidney Jorge • 4 de novembro de 2024

Queria ver um poeta

Desejava ver um poeta,

Não sabia onde procurar

Fui à janela aberta

E me pus a contemplar.


Vi uma árvore frutífera,

O avião passou no céu.

No bolso nunca faltava.

A caneta e um papel.


Vi os prédios subirem,

E a cidade crescendo.

Enquanto o progresso chegava...

Vi casas antigas morrendo.


Até o trem a vapor

Sabia que ia passar

Veio a locomotiva,

À diesel, tomando o lugar


Vi o pássaro verde,

Azul, vermelho e amarelo,

Da janela onde estava,

Faziam do telhado o castelo.


Vi  jovens correndo na rua,

Crianças brincando na praça,

O cachorro olhado a lua,

O menino fazendo pirraça.


Via a floresta caindo,

Deixando lugar para a estrada.

O automóvel evoluído,

E a rua engarrafada.


Vi no cume a igreja,

Acolhendo zelosos fiéis,

Na reza com toda certeza,

Cumprindo sublime papéis.


Vi a nuvem branca ou cinzenta.

Encobrindo o vistoso anil,

A chuva, às vezes, cruenta,

Na terra o barro fundiu.


Um breve momento na janela,

E o poeta eu pude encontrar

Pois a vida, de fato, tão bela,

Traz poesia em todo lugar.

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