Apareceu o Ivo Kokinho

Sidney Jorge • 1 de outubro de 2026

     Apareceu o Ivo Koquinho

     Dentre as propostas para elevar o nível de consciência ou a frequência vibracional, uma delas é incrivelmente simples: caminhar. Seja quem for a pessoa a revelar os segredos para uma vida mais próspera, sempre há um incentivo a dar o primeiro passo. E a melhor forma de fazer isso é caminhando, literalmente.


     Existem situações em que a pessoa estaria, por vários motivos, debilitada para se exercitar na estrada, mas o mesmo processo serve para a decisão de ler um livro, por exemplo. O necessário é começar.


     O casal iniciou o caminho. O local escolhido foi a Linha d’Oeste. Sabe-se que a rua tem um nome diferente da referência costumeira, mas quase todos na região sabem onde fica a “Linha do Oeste”. Foram vinte e três dias de passos — entre 8.000 e 12.000, de acordo com o pedômetro do relógio digital, para ser mais preciso. Uma parte da estrada é asfaltada; a outra é de terra pura: no tempo de sol, haja poeira; depois da chuva, haja barro.


     Mas o que difere este caminho é a vasta cobertura da natureza ao redor. Em alguns trechos, o arvoredo ou o bambuzal se encontram acima das cabeças, formando generosos túneis naturais que minimizam o calor nos dias de sol aberto. Flores, poucas casas, alguns cães, sons de diversos pássaros e vários transeuntes que trocam um sonoro "bom dia" ou "boa tarde", a depender do momento escolhido para o exercício. Ciclistas também escolhem o lugar. Uns passam rápido, outros seguem com os filhos pequenos em um pedalar mais cadenciado. Tem gente que corre e há quem prefira apenas andar e curtir a bonança da natureza local.

O trajeto também é ótimo para conversar. A depender da distância, rende até duas horas de prosa. Após alguns dias, o reconhecimento da mudança na musculatura se faz notar.


     E foi justamente nesse vigésimo terceiro dia de dedicação que conhecemos o Sr. Ivo Kokinho. Voltávamos para casa, ainda no percurso de terra (com muita poeira, por sinal). Um senhor parou a bicicleta ao nosso lado e iniciou uma conversa. A volta tem uma leve elevação e exige certo esforço, tanto para caminhar quanto para pedalar. Pensamos que ele seguiria adiante, mas não.


     No meio da conversa, disse que morava na Colônia Rodrigo Silva, um bairro com características rurais e urbanas cujo caminho era o nosso destino final. Prontamente, perguntei se ele conhecia um tio que mora por lá, o tio Moacyr. Ele respondeu que sim e, em dado momento, falou de outro senhor conhecido dele e com alguma ligação com o Moacyr: um homem com o apelido de Minuto, lá do Santa Efigênia.


     A conversa ficou ainda mais interessante quando revelei que o Minuto era meu pai. Houve um misto de espanto e coincidência naquele momento. "Trabalhei com ele na Fábrica São José, de vez em quando o encontro na feira de sábado. Por esses dias, ele até tentou encontrar a casa do Moacyr, mas não conseguiu, não é mesmo?", disse o senhor. Verdade, a informação procedia.


     A caminhada seguia, e o Sr. Kokinho ia ao nosso lado conduzindo a bicicleta com as mãos. De vez em quando, minha esposa também participava da conversa. Falávamos da beleza daquele caminho e descobrimos que ele tinha 70 anos. Em certo momento, perguntou o que fazíamos. Rapidamente, dissemos que gostávamos de escrever, que tínhamos uma revista digital e, também, sobre as poesias.


     E como faz para ganhar dinheiro com escrita?", indagou. Respondemos que dependia da publicação de livros, parcerias e outras iniciativas.


    "Pois bem, vou contar minha história. Sou cantor, ator, compositor, poeta e produtor de filmes. Antes da pandemia, eu tocava e cantava nos bailes, mas depois acabou tudo; diminuíram bastante os festejos com dança. Entretanto, eu produzo filmes e coloco nas redes sociais. Tem os irmãos gêmeos, que sou eu mesmo fazendo os dois papéis. Narro com humor a realidade da roça e brinco com as mazelas da vida para levar um pouco de alegria às pessoas. Já passei por muita coisa... hoje conto essas histórias. Pensei no roteiro de um filme e pedi apoio à Prefeitura, mas quem me ouviu e se prontificou a ajudar foi o Comandante da EPCAR. Pena que o prazo para o uso do auditório, antes da reforma, era de apenas quinze dias, e não seria possível finalizar as gravações até lá. Saí agradecido e faço questão de dizer isso".


     O diálogo, que já era bom, tornou-se fascinante. Jamais imaginávamos tratar-se de alguém tão apaixonado e dedicado às artes. Registrei o contato telefônico que ele disponibilizou. Ali mesmo, busquei no YouTube o canal alimentado pela vasta criatividade do artista, que faz questão do nome de nascença e de palco: Ivo Kokinho. De pronto, encontrei o irmão “gêmeo”, uma montagem de cenário meticulosamente elaborada para que houvesse a interação dele com ele mesmo, recitando um poema que descrevia o passado. Músicas, vídeos curtos de humor, tudo feito de forma criativa, contando ainda com a participação especial de outras pessoas. Aproveitei e apresentei, rapidamente, alguns vídeos em que eu declamava poesias autorais.


     Chegamos ao local onde havíamos deixado o carro. Nos despedimos expressando a satisfação por aquele encontro. O Sr. Ivo Kokinho subiu na sua Caloi e seguiu seu rumo. Nós caminhamos até o veículo, conversando sobre a aleatoriedade — ou não — daquele momento. Um de nossos projetos atuais é justamente entrevistar pessoas com o perfil do Kokinho, que guardam histórias e mensagens impactantes. Inclusive, falávamos sobre essa proposta durante o trajeto. Após a conversa com ele, parecia que tudo se desenhava de forma simples. A primeira fala da esposa, logo após nos despedirmos do sênior ciclista, foi: "Vamos convidá-lo para uma entrevista em nosso podcast". Não tínhamos dúvidas de que seria um privilégio.


     Naquele dia, a caminhada teve um desfecho especial. Até então, os contatos na Linha do Oeste não passavam de breves cumprimentos, mas passar metade do trajeto na companhia de uma pessoa com tanto talento e bagagem foi diferente.


     Assim acontece com quem se põe a caminho: talvez passem dias sem novidades, mas, de repente, alguém surge para caminhar junto. Em outros dias, o próprio trajeto se renova; mudamos o olhar para perceber uma árvore antes invisível, tentamos identificar o canto de um pássaro novo ou paramos diante de uma planta para discorrer sobre ela. Às vezes nos propomos a andar um pouco mais, em outras, um pouco menos. O caminho é uma construção que só acontece no ato de caminhar. Enquanto avançamos, purificam-se a mente e o corpo, queimam-se calorias e visualizam-se projetos. Outros momentos decorrem em silêncio absoluto. Nos dias em que a companhia foi o filho, ou os filhos, a pauta mudou, mas o projeto de família se manteve firme.


     Caminhar é uma dádiva que traz benefícios diversos e renova o olhar. Exercita a paciência, pois é preciso ir e depois voltar. Se a ida é descida, o retorno será a subida, e vice-versa. Há que se levar água para saciar a sede. Uma corridinha leve é sempre bem-vinda: acelera o coração, garante pontos de cárdio no aplicativo e, acima de tudo, se converte em saúde e bem-estar. Provoca mudanças reais, perceptíveis quando notamos que, no mês passado, ir à padaria da esquina era cansativo, e hoje, se preciso, vamos correndo. Dá para contar e partilhar histórias — e melhor ainda quando podemos escrevê-las. Podem virar poesias e devem se transformar em encontros saudáveis. Concede disposição para trabalhar, resolver pendências e seguir os dias. Dá para olhar todos os sinais da criação de Deus e agradecer. Simplesmente agradecer.

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