A escolha do Lucas

Sidney Jorge • 25 de fevereiro de 2026

       A escolha do Lucas

        É importante ressaltar as referências cronológicas que contextualizam a origem desta reflexão. O ano é 2026, o mês é fevereiro, o dia 14, e a hora é relativa, dependendo das rotações da Terra; uma hora lá e outra aqui. O local: Milão-Cortina, Itália. O evento: Jogos Olímpicos de Inverno. O feito: medalha de ouro na modalidade de slalom gigante. A pessoa: Lucas Pinheiro Braathen. O país agraciado com a medalha: Brasil.


        Lucas, filho de pai norueguês, Borj Braathen, e mãe brasileira, Alessandra Pinheiro Evans, faz questão de evidenciar isso em várias entrevistas. Narra que vivia um misto de norueguês com brasileiridade. Numa entrevista, disse que era o brasileiro na Noruega e norueguês no Brasil. Aos 5 anos, ao apreciar vídeos com as jogadas mágicas de Ronaldinho Gaúcho, afirmou que queria ser jogador de futebol e treinaria para ser, um dia, o melhor do mundo. Começou a praticar, mas as condições do tempo na Noruega suspendiam os treinos. Aos 9 anos, iniciou as atividades com esqui. Percebe-se, com clareza, uma das escolhas de Lucas: a neve não o impediu de ser um atleta. Evidencia-se também a disparidade entre futebol e esqui e, seja no futebol ou no esqui, ele, previamente, escolheu estar entre os melhores.


       Como esquiador, ele começou a se destacar como um atleta premiado na Noruega, um país amplamente conhecido pela sua expertise em esportes de neve e gelo. É um fato que a Noruega conquistou o primeiro lugar no quadro de medalhas nas últimas quatro edições dos Jogos Olímpicos de Inverno, evoluindo de um quarto lugar em 2010, quando o Canadá liderou a contagem de medalhas de ouro. Vale lembrar que, naquela época, Lucas tinha apenas 9 anos; ainda criança, estava apenas no início de sua jornada de treinamentos.


       Havia uma característica de Lucas que o diferenciava no país em que vivia: era a sua transparente brasileiridade. Em seus êxitos como esquiador, fazia questão de se envolver com a bandeira do Brasil, celebrar cantando músicas brasileiras e ensaiar alguns passos de danças do além-mar. A expressão “vamos dançar” está lá, impressa atrás de um dos capacetes usados para as exigentes descidas alpinas. “Não compreendiam muito bem este lado de minha personalidade”, diz em uma das entrevistas. Desejava unir o melhor da Noruega com o melhor do Brasil. Ele nunca deixava de reconhecer que sua presença no mundo era fruto de duas vidas e duas culturas bem diferentes, o que o tornava diferente; isso o fazia sentir, talvez, que essa era sua maior riqueza: transcender os limites geográficos por simplesmente ser.


       Fez o melhor tempo na primeira descida, levando uma vantagem de 95 centésimos para a segunda. Entre as descidas, falou com a repórter Luiza Romar, da CazéTV, sobre a importância da torcida brasileira no processo da competição: “Escuta, o Brasil está em todos os cantos do mundo, agora, nas montanhas também. A gente está trazendo uma onda, uma frequência muito alta, com muito amor e muita alegria. Eu acho que isso é uma coisa que todo mundo gosta de sentir, na presença Dele, e, especialmente eu, né? Então, eu sou tão grato por ter essa energia na minha presença, no dia mais especial da minha vida.” Na segunda descida, confirmou o primeiro lugar, deixando atônitos os narradores e, sem dúvida, todos os brasileiros que acompanhavam o momento que virou notícia ao redor do mundo..


       Ao conquistar a medalha de ouro, disse que a mensagem que queria passar era de que “não importa a roupa que você veste, não importa a cor da pele ou de onde você é, o que importa é o coração, o desejo de fazer a diferença e inspirar as pessoas.”


       E, realmente, tudo foi mágico devido a uma brava escolha de Lucas. Sem especificar ou conjecturar motivos nesta reflexão, sabe-se que ele declarou sua aposentadoria aos 23 anos. Basicamente no auge se suas performances como atleta esquiador. Mas, foi exatamente nesse vácuo esportivo onde surgiu a possibilidade de voltar a competir e sua decisão foi clara, voltar sim, se for para representar o Brasil. O que de fato aconteceu. E aqui podemos sentir o ápice da energia significada nessa ousada e sensível escolha.


       Motivos econômicos podem haver, mas a coragem de trocar a bandeira a ser impressa nos aparatos esportivos, perpassa quaisquer desconfianças de torcer para essa pessoa. Sim, pessoa, pessoa humana, de acordo com alguns de seus próprios relatos, pode-se afirmar que se trata de alguém que entendeu, no percurso de sua existência e experiências, que o “ser” está além do pertencer, está além das geografias, das raças e, quando este ser nasce, especificamente, das tantas misturas genéticas, sabe o que está falando. Assim é o Brasil. Quem escreve tem um pouco de África, um pouco de Indígena e um pouco de Itália e está tudo bem. A identidade do povo brasileiro se confirma numa imensurável fusão genética de “raças”. É quase uma ausência de identidade, mas é essa a beleza de nossa identidade.


       Lucas entendeu isso, se contagiou por isso, a cada vinda ao Brasil, para estar com a mãe e os familiares, sentia-se mais brasileiro sem deixar de, também, ser norueguês. O Brasil compreende isso, há muito o que aprender, entretanto não tem como negar a evidente miscigenação. Existem, atualmente, líderes mundiais que não aceitam esta realidade de um mundo sem fronteiras raciais e econômicas. À princípio, é este o alerta do atleta, a importância das pessoas transcende as aparências. Ensina a olhar para a expressão do ser que pode e deve ser acolhida na sua totalidade. Só assim para transformar a realidade.


       Foi o que ele fez. Mudou a realidade. Interviu na história. Representou sua escolha na completude de sua prática esportiva. Vestiu a camisa de um país, ou melhor, a blusa. Embalou a bandeira do Brasil na abertura dos jogos já sinalizando que ela seria fincada ali para a história, sambou e dançou também. Pouco antes das olimpíadas, treinou com a namorada brasileira, o canto do Hino Nacional Brasileiro, uma visualização de que o faria no lugar mais alto do pódio. Falou de amor, de crista de onda de frequência vibracional, de gratidão. Direcionou o olhar de brasileiros do Brasil e do mundo para o alto da montanha preparada para a histórica descida no “slalon gigante”. Pautou o mundo para reconhecer o feito. Já campeão abraçou o pai, a mãe e ambos num gesto de união daquele pouco de Noruega, de Brasil e do resultado miscigenado das duas culturas. Abraçou mais pessoas também.


       Já com a medalha de ouro envolvendo o pescoço, até iniciou o canto do Hino Brasileiro, mas as lágrimas de alegria revelaram o poder daquela emoção e embargaram-lhe a voz, optando inevitavelmente pelo choro. Tinha consciência daquele quadro: a Bandeira do Brasil era hasteada pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos de Inverno à frente das bandeiras da Suíça, que ficaram com a prata e o bronze. Nas imagens veiculadas, percebia-se que atletas de outras federações reconheciam a atuação memorável de Lucas nestas Olimpíadas.


       Nas abordagens jornalísticas, Lucas Pinheiro Braathen falou em norueguês com a Noruega, em italiano com a Itália, em alemão com a Alemanha, em inglês com quem fala inglês e, quando a repórter Fernanda Gentil, da CazeTV, no final da entrevista, perguntou, estranhamente: “... Você é de onde, Lucas?” Após uma pausa, risos e vários suspiros, escolheu o que e como falar e, enfaticamente, respondeu: “É do Brasil, caralho!... É do Brasil!” com a voz trôpega, sotaqueada, mas em “bom” e incisivo português, brasileiro.


Referências:

https://www.youtube.com/watch?v=ro-AgY1RCjU, acessado em 23/02/26, ver a partir de 4:14:27ss.

https://www.lugardeopiniao.com.br/escolhas

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lucas_Pinheiro_Braathen

https://www.redbull.com/br-pt/lucas-pinheiro-braathen-alpine-skier-career-profile


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