O ponto de ônibus
O ponto de ônibus
Na rotina da semana, eu e meu marido vamos para o escritório. Temos algumas opções de trajeto, uns mais longos, com menos fluxo de carro, e um que acabou sendo o mais usado, apesar do movimento. Tem hora que pretendemos passar pelo outro caminho, mas o automático nos leva nesse que é para o centro da cidade. Por mais de um ano fizemos esse percurso a pé, gastando cerca de 40 minutos de caminhada entre o apartamento, onde moramos, e o escritório. Morar em cidade relativamente pequena tem suas vantagens e, uma delas, é que nada é longe demais. Dá para usar tranquilamente o “é logo ali”.
Indo do apartamento para o escritório, já bem próximo da região central da cidade, tem uma parada de ônibus e um fato sempre me chamou a atenção. O ônibus estaciona para as pessoas descerem e os que vão em direção ao centro da cidade passam pela frente do ônibus e atravessam a rua driblando os carros que aguardam o sinal abrir ou simplesmente invadindo a rua fazendo com que os carros freiem diante de tantas pessoas atravessando ao mesmo tempo. O curioso é que a faixa de pedestre está a uns 25 metros. Por ser um local de grande movimento, tem 3 sinais de trânsito, quando fecha para os carros, demora a abrir, permitindo observar a rotina do entorno.
Como é um caminho que faço diariamente, propus um desafio para a minha memória: observar se as pessoas que descem e atravessam pela frente do ônibus são as mesmas diariamente, mas não são. Eu me pergunto, o que leva essas pessoas a se arriscarem atravessando a rua desta forma, com uma faixa de pedestres tão próxima? Nas minhas observações, primeiro aparecem umas duas carinhas olhando a rua já ensaiando as passadas e atrás delas vêm as demais, com isso, obrigam os carros a parar. Mas o que sempre me intrigou é o porquê de uma travessia tão arriscada no meio dos carros?
Lembrei-me de um vídeo que assisti com meus alunos, há bastante tempo (Como nascem os paradigmas): numa jaula são colocados 5 macaquinhos, à frente deles uma escada e no alto um cacho de bananas, todas as vezes que um macaquinho vai subir a escada, todos recebem um banho de água fria. Com o tempo, a cada vez que um macaquinho tenta subir a escada, é impedido pelos demais. Aos poucos, um macaquinho é substituído por outro, até trocar todos e, curiosamente, mesmo aqueles que nunca tomaram banho de água fria, impedem o que tenta subir as escadas.
Fazendo uma analogia, o comportamento perigoso dos pedestres não é uma decisão racional individual, mas um paradigma social enraizado. Assim como os macaquinhos da experiência, os passageiros repetem o padrão de atravessar na frente do ônibus simplesmente porque "é assim que as coisas são feitas ali". A presença da faixa de pedestres é ignorada pela repetição de que as pessoas seguem o fluxo do grupo sem questionar o risco. Quando os primeiros pedestres "ensaiam as passadas", eles servem de gatilho para os demais. A segurança individual é transferida para os que saem na frente; se eles estão indo, parece seguro ir também.
Mesmo que o grupo mude diariamente, o comportamento permanece. O local "ensina" o novo passageiro a agir da mesma maneira, perpetuando um ciclo num paradigma invisível, que pode ser também denominado de “efeito manada”. A força do hábito coletivo e a imitação social anulam a lógica da segurança. Assim como na história dos macacos, as pessoas param de questionar o "porquê" e apenas replicam o comportamento de quem veio antes.
No entanto, esse tipo de comportamento não é restrito ao simples atravessar a rua, vai muito além. Sob a óptica da psicologia social, também é aplicável quando se defende o indefensável, no viés equivocado de adesão fundamentado por crenças e porque algum “influencer” está fazendo o mesmo. Que efeito manada (bandwagon effect) faz com que se defenda, o que lhe é contrário? Há poucos dias vi um comentário que me pareceu esclarecedor e, ao mesmo tempo, preocupante: “o garoto propaganda da Sadia é um frango”.
No final das contas, a adesão transforma sujeitos em meros propagadores de narrativas, onde a verdade é substituída pela conveniência de um coro ensaiado de uma justificativa e convencimento, tal qual o frango do comercial, relembrando a clássica analogia do ovo e do bacon. O porco, ao ser convidado pelo frango a fazer parte da sociedade no restaurante denominado “Bacon com ovos”, sentiu-se valorizado e importante, sem perceber os reais sacrifícios pelos quais terá de passar. Nestes tempos, cabe a reflexão!









