Aprendi no torneio de robótica.

Cláudia Chaves • 10 de fevereiro de 2026

     Aprendi no torneio de robótica.

     Sou da geração que assistiu aos Jetsons e acreditava que no distante ano 2000, tudo seria robotizado. A ida para a escola num carro voador, era o sonho, principalmente na década de 70 e 80 onde ter carro era um luxo. Outro sonho de consumo era a Rosie, a robô “doméstica” da casa que limpava, cozinhava, dava bronca nas crianças interagindo com os humanos como membro da família. As reuniões de trabalho do George, em telas que desciam do teto, eram avanços inimagináveis para a época.


     Jane, a esposa e mãe da família, se exercitava orientada diante a tv de tela plana, as conversas com as amigas eram por vídeo chamada, algo que mexia com a imaginação dos adolescentes que usavam o telefone fixo ou o orelhão para fazer ligações. Lembro que a decoração da casa era toda futurista, enfim, algo desejado e idealizado por quem, como eu, era fã do programa.


     Chegaram os anos 2000 e a realidade dos Jetsons ainda estava longe. Exatamente em 2000 terminei a faculdade, o banco Real, atual Santander, tinha uma linha de crédito para recém formados comprar computador. Na época, comprei 2 computadores, um para ter em casa e outro para o escritório que eu estava abrindo com um colega de sala. O computador tinha a opção de ser branco ou preto, a tela de tubo ocupava boa parte do espaço na mesa “de computador”. Foi-me orientado a não deixar os fundos da tela muito próximo à parede, para não esquentar demais. O gabinete também ocupava bastante espaço, mas o computador do escritório tinha um problema, ele esquentava e desligava do nada.  A solução encontrada foi deixar o ventilador ligado e virado para o gabinete, mas, quando nem o ventilador dava conta, o desligar era inevitável.


     O tempo passou, as tecnologias aos poucos foram tornando-se mais acessíveis, os computadores reduziram o tamanho e aumentaram a capacidade de memória e armazenamento, não precisando mais de disquetes ou pendrives para guardar arquivos, hoje, armazenados na nuvem. Confesso que ainda não entendo bem essa nuvem, a minha imaginação enxerga as nuvens do céu, mas tudo bem, deve ter um departamento por lá para armazenar informações.


     E vamos nos familiarizando com os eletroeletrônicos, robô aspirador de poeiras que passa pano no chão da casa, geladeira inteligente, fogão inteligente, luz inteligente, enfim, a cada dia surge uma novidade “inteligente”.  Por enquanto, não temos robôs humanoides em casa, mas pode tornar-se uma breve realidade, considerando que fábricas e indústrias já utilizam robôs na linha de produção. Volta e meia assistimos à China fazendo demonstrações de robôs cada vez mais fisicamente parecidos com os humanos. Vi, não me lembro onde, que por lá já tem um hospital onde os atendimentos dos pacientes são feitos por robôs. Deve ser estranho, a atenção e o cuidado, próprios da empatia e compaixão diante do próximo, não pode ser substituída, não é apenas dar remédios na hora certa, é sobre lidar com o emocional de quem está ali em busca de tratamento, acredito que os robôs não estejam “sentimentalmente” preparados para isso.


     Seguindo o caminho inevitável dos avanços tecnológicos, as escolas passaram a adotar a robótica no processo de aprendizagem. Óculos de realidade virtual é utilizado como suporte nos estudos. Interessante aprender dessa forma, as aulas ficam mais dinâmicas e atrai a atenção do aluno. Ser professor, hoje em dia, é desafiador pela disputa de atenção com o celular e suas muitas opções de jogos, youtube, Spotify, redes sociais, o famigerado TikTok e suas muitas dancinhas.


     Os meus filhos tiveram a oportunidade de estudar numa escola que investe em tecnologia e os dois passaram pela robótica. O meu filho mais novo é da equipe da engenharia do robô e participa dos campeonatos FTC. Eu não tinha muita ideia de como era, até então, via os campeonatos pelo Youtube ou quando a escola partilhava os vídeos, mas, em 2025, conseguimos, eu e meu marido, ir a um amistoso que aconteceu em São João del Rei, cidade próxima de onde moramos.


     É um evento interessante, as equipes montam seus stands, que eles chamam de grid, professores, alunos e técnicos numa concentração incrível. É bonito de ver como essa juventude é talentosa. Quando chegamos, vimos o nosso filho concentrado, com o computador nas mãos, se preparando para a próxima partida. A cada temporada o robô tem que cumprir uma missão diferente, nessa, era atirar bolas numa sequência de cores. Nos módulos teleoperado ou autônomo, ao final do tempo da partida, o robô deve estacionar nos lugares já demarcados na arena.


     Até aí, tudo bem, muito estudo, planejamento, dedicação, peças e engrenagens daqui e dali, pensar no layout e nas cores do robô, mas um fato me chamou muito a atenção, o robô da equipe adversária tirou o robô da equipe do meu filho do lugar estacionado. O regulamento permitia isso, só que a equipe que sai do lugar, perde pontos. Ao final daquela partida, enquanto aguardavam a outra partida, meu filho disse mais ou menos essas palavras: alterei a programação do nosso robô, já que não posso mudar a programação do robô adversário.


     Mesmo passado um tempo do amistoso, lembro dessa “estratégia” como uma lição para a vida. Cada pessoa tem suas memórias e crenças que a fazem ter essa ou aquela reação diante de alguém ou alguma situação. Só que não temos como interferir “na programação” do outro, ninguém muda ninguém. Se uma situação não está favorável, não adianta brigar, xingar ou reclamar, o que fazer então? devo alterar a minha programação porque se algo me atingiu é porque deixei brecha para que isso ocorresse. Mudando a minha “programação” estarei preparada para o “outro robô” que pretende “me tirar do lugar”.


     Como fã de desenho animado, há tempos tomei como mantra a frase usada pela Edna, estilista do filme Os Incríveis: “A sorte ajuda a quem está preparado.”  Não é sobre viver em “estado de alerta”, desconfiando de tudo e todos, é sobre estar conscientemente presente, fazer a leitura da situação. Observar o campeonato me ensinou, nos intervalos, todas as equipes confraternizavam juntas, no dia anterior tem sempre uma festa de abertura e as equipes dançam e se divertem juntas, mas na hora da competição é cada um por si.

Analisando, mesmo quem não está em um campeonato, está numa competição diária, no período escolar, é competição por notas, quem é o melhor aluno(a) da turma, é competição para a vaga de emprego, para ingresso em faculdade, por um espaço no mercado de trabalho, por reconhecimento pessoal e profissional, por mais seguidores nas redes sociais. Li um provérbio que diz, mais ou menos assim: é possível convencer um sábio pela razão, mas um tolo não se convence nem diante das provas. Cada um tem sua razão, na versão própria da história, não adianta, muitas das vezes, tentar mostrar um outro ponto de vista. Retomando a frase que ouvi, não posso mudar a programação do outro, mas posso cuidar da minha.

 


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